29.08.11

Histórias (em quadrinhos) do Clube da Esquina

 

  • Álbum narra bastidores da vida e da obra dos músicos mineiros
  • Obra de Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole integra edital de incentivo às HQs
  • Publicação tem lançamento nesta segunda-feira à noite em São Paulo

 

Histórias do Clube da Esquina. Crédito: editora Devir

 

Histórias do Clube da Esquina. Crédito: editora Devir

 


Antes de se enfronhar pelas páginas de "Histórias do Clube da Esquina", que tem lançamento nesta segunda-feira à noite em São Paulo, é preciso entender um detalhe importante sobre a costura narrativa da obra, escrita e desenhada por Laudo Ferreira Júnior e arte-finalizada por Omar Viñole (Devir, 48 págs., R$ 19,50).

O segredo está no título. Trata-se de histórias. No plural mesmo. O alvo delas são os músicos mineiros, dos quais faziam parte Milton Nascimento e os irmãos Márcio e Lô Borges.

O leitor verá fragmentos tanto da vida quanto da obra dos cantores e compositores. Da infância vivida juntos em Belo Horizonte aos primeiros acordes profissionais.

A soma das narrativas, ao final, constrói a real proposta da obra: transpor para os quadrinhos como se deu consolidou o movimento do Clube da Esquina.

                                                           ***

"Em vez de fazer o negócio contando ano por ano, eu resolvi fazer uma história atemporal", disse o autor, em entrevista ao blog em novembro de 2007, quando iniciou o projeto.

"Pego os anos 1960, depois vou aos 90 e assim por diante." Ele manteve a característica também no álbum. Acrescentou apenas um prólogo e um desfecho, de modo a dar unidade.

Parte das histórias são reproduções impressas de narrativas já veiculadas no site do Museu Clube da Esquina, instituição que procura preservar a memória do grupo de músicos.

Eram relatos de uma a três páginas sobre momentos do passado dos cantores e compositores. A eles foram somados outros. E, todos, amarram o álbum em quadrinhos.

                                                          ***

O reuso dos quadrinhos do site justifica a construção fragmentada do álbum e não compromete a unidade da obra. Como dito, o título costura esse modo de narrar. 

Mas algumas histórias poderiam ter recebido pequenos ajustes, de modo a evitar algumas redundâncias. Uma delas é o tom de apresentação do grupo presente nos quadrinhos finais.

Faltou também os eventuais senões da sinfonia da vida que compôs o movimento musical. A opção foi a de mostrar apenas o lado bom e positivo. O outro lado foi camuflado.

De todo modo, isso não tira o brilho e a relevância do álbum, mais um bom fruto do edital paulista de incentivo à produção de histórias em quadrinhos.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Histórias do Clube da Esquina", de Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole. Quando: hoje (29.08). Horário: das 19h às 22h. Onde: Livraria da Vila, unidade Lorena. Endereço: alameda Lorena, 1.731, São Paulo. Quanto: R$ 19,50.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h18
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22.08.11

Dois pássaros, uma revista e uma estratégia

 

  • Pássaros são protagonistas de novo trabalho independente de Gustavo Duarte
  • "Birds" repete fórmula de ter animais como personagens em histórias mudas
  • Lançamento da revista será nesta terça-feira à noite em São Paulo

 

Birds. Crédito: imagem cedida pelo autor

 

"Birds", novo trabalho do desenhista paulista Gustavo Duarte, guarda duas histórias.

A primeira é o enredo em si. A segunda, a estratégia por trás da publicação, que tem lançamento nesta terça-feira à noite, em São Paulo.

Como é preciso começar por algum lugar, que seja pelo enredo. A narrativa repete a fórmula usada pelo autor nos quadrinhos que vêm publicando de três anos para cá.

A história têm como personagem algum animal. No caso, são dois pássaros, Palhares e Palhares, que dividem um mesmo escritório. E uma cena inesperada que surge dentro dele.

                                                         ***

Como se trata de uma história curta, de 32 páginas, dizer mais pode revelar o que não deve. Mas dá para dizer que o conteúdo dialogo, de forma cômica, com o gênero do suspense.

Esse diálogo com outros gêneros, vertidos pelo traço bem-humorado e singular do desenhista, parece ser outro ponto comum entre a produção de Duarte.

Em "Có", de 2009, havia um quê de ficção científica. Em "Taxi", publicada no ano passado, o tom visual era dos musicais de jazz, ambientados nos bares da vida.

A história que produziu para o álbum "Fierro Brasil", lançado no primeiro semestre, mexia com o fantástico.

                                                         ***

A retomada das histórias recentes revela que Gustavo Duarte produz uma revista por ano. Isso faz parte da outra história que "Birds" traz.

As histórias, produzidas sem palavras, conseguem atingir facilmente leitores de diferentes línguas, unidos pelos poliglotas recursos da linguagem dos quadrinhos.

Atingir o mercado externo é um dos objetivos do desenhista. A primeira incursão de "Birds" foi na San Diego Comic-Con, convenção de quadrinhos realizada em julho nos EUA.

A tiragem, de três mil exemplares, foi a maior das três revistas editadas por ele e bancadas do próprio bolso. Volume que deve abastecer não só pontos de venda brasileiros.

                                                         ***

Chargista do jornal esportivo "Lance!" e ilustrador de outros veículos de imprensa, o ingresso do autor nos quadrinhos é relativamente recente. Recente, mas bem-sucedido.

Chegou ao exterior e foi premiado com um Troféu HQMix, o principal da área de HQ do país. O mérito da repercussão é exclusivo de Duarte.  Por qualquer ângulo que se observe.

No conteúdo, é dono de um traço marcante, que casa muito bem com o humor de suas histórias.

Do ponto de vista comercial, ele tem se firmado no circuito independente e sabido esgotar o que lança. Tanto que já se tornou hábito aguardar a próxima loucura de seus bichos.

                                                          ***

Serviço - Lançamento de "Birds", de Gustavo Duarte. Quando: terça-feira (23.08). Horário: a partir das 20h. Onde: Sabiá Bar e Restaurante. Endereço: rua Purpurina, 370, Pinheiros, em São Paulo. Quanto: R$ 12.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h51
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14.08.11

A passagem de Solano López pelo Brasil

 

Sangue Bom, álbum desenhado por Francisco Solano López, escrito por Carlos Patati e arte-finalizado por Allan Alex

 

O desenhista argentino Francisco Solano López, morto na última sexta-feira, teve uma passagem pelo Brasil entre as décadas de 1980 e 90.

A passagem pelo país, mais especificamente pelo Rio de Janeiro, rendeu parceiras com diferentes autores brasileiros, muitas delas ainda inéditas por aqui.

Uma das exceções, publicada pela editora Opera Graphica, foi "Sangue Bom". O álbum foi desenhado por Solano, escrito pelo brasileiro Carlos Patati e arte-finalizado por Allan Alex.

O blog convidou Patati para rememorar na forma de depoimento essa experiência com o quadrinista argentino. Convite gentilmente aceito, segue o precioso relato. 

                                                         ***

Tive o privilégio de conhecer Francisco Solano López no comecinho dos anos noventa, graças ao quadrinhista argentino Mosquil, colaborador, como eu, da revista paulista “Porrada”. Mosquil me disse que fazia uns dez anos, quase, Solano López morava no Rio de Janeiro, onde tinha seu estúdio instalado. Aqui, trabalhava com auxiliares, suprindo a demanda de seu mercado europeu! Disse-me que era muito acessível e disposto a conhecer jovens desenhistas. Valia a pena eu levar o “Nonô Jacaré”, que eu escrevia e o Allan Alex desenhava, para mostrar a ele.

Fiquei eletrizado! Eu já conhecia não só “El Eternauta” como “Evaristo”, sua série sobre um chefe de polícia argentino, muito justo, ainda que capaz de desferir seus tabefes. É uma tremenda HQ policial, que realizou com o grande, Carlos Sampayo (roteirista co-criador do “Alack Sinner”, com José Muñoz). Mas isso foi pura sorte minha, pois aqui a gente quase nem sabia que HQ argentina existia, eu é que achava álbuns europeus em certas livrarias cariocas. Mosquil me explicou que a produção dele era bem maior e mais rica do que eu supunha. Quando telefonei, fui muitíssimo bem atendido, e combinei de passar lá durante a semana, num lugar conhecido e de fácil acesso, o Largo dos Leões, no Humaitá, pertinho de onde já morava um casal de amigos meus. Sim, um dos mestres da tremenda tradição argentina de HQ de aventura vivia e trabalhava no Rio de Janeiro!

Estava um pouco nervoso quando cheguei lá, mas Solano me recebeu com a maior simpatia, e passamos a tarde conversando, em seu amplo estúdio. Ele gostou do meu interesse pelos quadrinhos argentinos, e me explicou que Alberto e Enrique Breccia eram duas pessoas diferentes, pai e filho, eu não estava fazendo confusão com o nome de um desenhista só. E me falou a importância de Breccia, que também tinha feito uma HQ do Eternauta, mas ele preferia, é claro, a original. Tive a impressão de estar na frente do Mandrake já idoso, finíssimo, presidindo sua equipe, na qual atuava como diretor de arte, com fineza e firmeza, em nome dos prazos. Só então me dei conta não só do tamanho histórico, mas, naquele momento atual, da sua produção!

Ele me mostrou diversas HQs de sucesso, que desenhou. Saíram primeiro na Argentina, depois na França e daí pularam para o resto da Europa. Tive noção não só do tamanho do seu trabalho, como da tradição argentina de quadrinhos de aventura, com muitos desenhistas de cuja existência eu não suspeitava, até então. Ele perguntou como eu conhecia seu trabalho, e eu falei de certos álbuns franceses que já tinha visto. Mas eu não tinha noção do tamanho do panorama editorial francês, nem do argentino. Solano tinha vários álbuns de luxo, já naquela época, publicados por editoras que eu nunca tinha visto, tanto de aventura histórica, de fantasia, ou eróticas.

Mostrou-me como funcionava o estúdio; numa sala ampla (o que seria a sala de visitas do apartamento), a produção de HQs semanais e coloridas de futebol, feitas para revistas inglesas de futebol. Dois auxiliares trabalhavam lá, no momento, aplicando cor segundo suas instruções. Num quarto de dormir, transformado em estúdio de duas pranchetas , estava em produção uma detalhada e longa HQ erótica para clientes franceses, na qual, com o mestre, trabalhava outro auxiliar. E num outro quartinho, na única prancheta ali, mais um auxiliar dispunha o material de pesquisa para uma HQ curta, de outra série na qual estava trabalhando, com Solano, para os italianos da Eura Editoriale, que publicam a Skorpio e a Lanciostory. Conversa vai, conversa vem, Solano gostou do traço do Allan e quis conhecê-lo. Voltei lá com meu amigo, e já nessa visita Solano o convidou para trabalhar lá. Com mais um auxiliar competente, poderia aceitar mais encomendas!

De minha parte, maravilhado, fiquei com a incumbência de trazer, já em inglês, alguns argumentos de seriado em cinco partes de doze páginas, para ver se os mesmos italianos se interessavam. Alguns dias depois, eu estava lá com cinco argumentos, dos quais um foi escolhido pela  revista “Lanciostory”, e realizado por nós três ao longo de um ano. Essa revista é um semanário italiano que publica HQs coloridas e em preto e branco, seriadas ou completas em cada edição. A nossa era para ser um seriado em preto-e-branco. Cada episódio só seria publicado quando a saga estivesse toda entregue, e no meio do segundo capítulo, como foi vendida também para a editora argentina Columba, ficamos no maior bom humor. Infelizmente, embora tenha recebido o pagamento deles também, nunca vi a edição argentina, só a italiana, e ainda assim um capítulo ou outro. Os italianos pagavam em dia, mas nem se lembravam de mandar exemplares de cortesia.

Esse foi um período feliz. Não fui o primeiro roteirista brasileiro com quem Solano trabalhou, mas decerto fui um dos que mais frequentou seu estúdio. O primeiro brasileiro com quem  trabalhou foi o Ivan Jaf, de quem um texto estava sendo realizado pelo mestre e Gustavo Maldonado, um de seus assistentes, quando fui lá da primeira vez. Solano foi generoso comigo ao comentar o argumento da HQ que veio a se tornar, bem depois, no Brasil, o álbum “Sangue Bom”. Desde o começo ele disse: ali faríamos o que até então ninguém tinha feito. Os terrores e ficções científicas que propus, ele disse, eram razoáveis, mas aquela favela ia chamar a  atenção. Não deu outra. Mais tarde, releu comigo o argumento, apontou pontos fracos e elogiou o que viu como virtudes, contribuindo, assim, para a carpintaria do roteiro da HQ.

Quanto ao trabalho do Allan, que sempre apreciou muito, me lembro até hoje de seu comentário, naquele momento: trata-se desenhar não só as curvas, como os volumes, dos personagens! Seu desenhista brasileiro predileto era Mozart Couto. E ele chamou nossa atenção para a beleza dos volumes no trabalho de Mozart. Era preciso que o leitor visse não só que a personagem era gostosa, mas como era gostosa!  Com essa, caímos na risada.

Solano ficou surpreso de eu conhecer o trabalho de José Muñoz, e me explicou que esse gigante tinha sido seu auxiliar, quando moravam todos na Argentina, antes da situação política exportar talentos para o exterior. Outro que também foi seu auxiliar de estúdio é Oscar Zarate, cuja magistral parceria com Alan Moore, “A Small Killing”, vi primeiro no estúdio de Solano: Zarate acabava de lhe mandar um exemplar de presente, fresquinho!

Com certeza, muitos outros, de cujos nomes não me lembro, também passaram por lá, ao longo de décadas de trabalho, com certeza aprendendo muito, sobre feitura de boas HQs. Entendo, hoje, graças a essa experiência, o tremendo valor, para um desenhista, do trabalho de auxiliar num estúdio com demanda de produção; da parte pesada e tediosa do trabalho o sujeito aprende a se livrar, para então desenvolver seu estilo. Allan ficou lá esse ano todo, trabalhando em textos meus e de outros. Além do “Sangue Bom”, vendemos aos italianos uma HQ completa de ficção científica, inédita em português até hoje.

Quanto ao aspecto educacional da parceria com Solano, o acesso às estantes do seu estúdio para mim foi inestimável. Vi cada HQ argentina e europeia que foi de babar! Numa outra visita, ganhei o que até hoje é uma das joias da minha coleção de quadrinhos. Trata-se de edição especial da Fierro, a antiga, compilando diversos exemplos das fases variadas do trabalho de Héctor Oesterheld, o roteirista patriarca da tradição desse país. Volta e meia releio. Mora, na estante, junto de “El eternauta” e dos “Mitos de Cthulhu”, do Breccia.

Junto com este seu antigo confrade Alberto Breccia, e mais Carlos Nine, José Muñõz e Carlos Sampayo, na I Bienal Internacional de Quadrinhos, evento carioca acontecido em 1991, Solano compôs a mesa argentina com elegância e alegria. Foi um momento importante, pois o público nem sequer suspeitava da riqueza da HQ argentina. Tanto o debate como a mostra foram muito ricos. Assistimos a esse reencontro cheios de entusiasmo, e durante um bom tempo, para mim e para o Allan, houve um ganho de experiência e trabalho considerável. Isso tudo, porém, não durou muito tempo. Pouco depois do término do “Sangue Bom”, de sua última entrega, como dizia Solano, veio  o  Plano Real, que não fez nada bem às suas finanças  dolarizadas. O desenhista decidiu voltar para a Argentina, e por conta disso, ficou difícil continuar a colaborar, apesar de termos tentado. É mais fácil, sem dúvida, trabalhar com quem está perto.

Mas foi um senhor privilégio ter colaborado com Solano López, com quem aprendi um bocado sobre a arte de contar histórias.

Seu legado continua entre nós.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h13
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04.08.11

Novas adaptações, novos caminhos, bons resultados

 

  • Três obras nacionais abordam novas facetas das adaptações literárias em HQ
  • Álbuns usam recursos do teatro e da literatura ilustrada para narrar histórias
  • Trabalhos se baseiam em textos de Fernando Pessoa, Castro Alves e Gil Vicente

 

Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Crédito: editora Peirópolis

 

Fugindo dos eufemismos e indo direto ao ponto: o interesse na publicação de adaptações literárias é atingir as gordas listas de compras governamentais para a área de ensino.

A constatação não é nenhuma novidade para quem acompanha o mercado de quadrinhos no país nos últimos cinco anos. O filão se tornou um negócio editorialmente atraente.

Do ponto de vista das editoras, não há nenhum demérito nisso. Ela visa o lucro e vê no poder público um grande comprador em potencial.

Em meio à overdose de produções assim que surgiu, algumas conseguiram fugir do convencional e apresentar algo novo ao gênero.

                                                        ***

Três dessas obras começaram a ser vendidas nos últimos meses. O diferencial é que, em vez da adaptação textual em si, procuraram traduzir o conteúdo de outra forma.

Duas delas se ancoraram no recurso da literatura ilustrada, recurso que visualiza para o leitor o que as palavras sugerem. A outra se pautou na linguagem teatral.

Os palcos ocupados por quadrinhos conduzem a versão de "Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente", produzida por Laudo Ferreira Jr. (Peirópolis, 56 págs., R$ 35).

Nada mais fiel ao original, posto que o auto vicentino foi encenado nas primeiras décadas da Portugal do século 16.

                                                         ***

O texto de Gil Vicente faz uma grande metáfora da vida aristocrática do país de então. As mazelas cotidianas da vida, facilmente identificáveis e ainda atuais, tinham dois destinos.

As atitudes rememoradas no fim da vida eram abonadas pela livre passagem à barca do bem. O contrário levava a pessoa à barca do inferno, onde seria punido por tudo.

O molde narrativo construído pelo quadrinista se assemelha a uma encenação. Claques erguidas por alguém sempre surgem quando entra em cena um novo personagem.

O resultado se equilibra no respeito ao conteúdo do escritor português e na leitura pessoal feita a ele. Inova, sem deixar a fidelidade de lado.

                                                         ***

"Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente" tem lançamento marcado para este sábado, às 19h30, na HQMix Livraria, em São Paulo (Praça Roosevelt, 142).

As outras adaptações já frequentam há algumas semanas as prateleiras das livrarias e das lojas especializadas em quadrinhos. Unem-pelo recurso, distanciam-se pelo autores.

O recurso: reproduzir os poemas originais, procurando transformá-los em imagens, necessariamente filtradas pelo olhar do quadrinista.

Os autores: uma obra verte para os quadrinhos textos de Fernando Pessoa e outros pessoas (os heterônimos do escritor português); a outra, de Castro Alves.

                                                         ***

O álbum baseado em Castro Alves transpõe para os quadrinhos "A Cachoeira de Paulo Afonso", poema pinçado do livro "Os Escravos", de 1876 (Pallas, 64 págs., R$ 30).

O trabalho foi assinado por André Diniz, que impõe ao trabalho do escritor baiano o seu estilo baseado no contraste entre claro e escuro (a obra é toda em preto-e-branco).

O segundo livro traduz visualmente mais de um poema em "Fernando Pessoa e Outros Pessoas", no traço de Eloar Guazzelli (Saraiva, 80 págs., R$ 34,90).

Guazzelli soma esta a outras adaptações que têm no currículo, casos de "Pagador de Promessas" e de "Demônios" (nesta, já havia enveredado pela linha da literatura ilustrada.

                                                         ***

Singulares, os três álbuns mostram que é possível apostar num outro caminho para as adaptações.

Em vez de simplificar o original a retratos de poucos momentos da narrativa, navega pelo veio contrário, o da fidelização do texto e da máxima exploração visual dele.

Isso é possível, evidentemente, por se adotar como texto-fonte obras mais curtas, caso do auto vicentino e dos poemas. Poderíamos listar também alguns contos.

Já que há uma sede comercial por adaptações, quaisquer adaptações, estas encontram nas produções menores, com menos linhas e páginas, um bom caminho a ser explorado.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h51
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