24.10.11

Tudo ao mesmo tempo agora

Terminou nesse domingo, no Rio de Janeiro, a segunda edição da Rio Comicon. Teve bom destaque na grande mídia, inclusive com reportagens no Jornal Nacional e no Fantástico.

Nesta segunda-feira, já há outro encontro de quadrinhos, desta vez em São Paulo, o KingCon, realizado na unidade da Avenida Paulista da livraria Fnac. Vai até domingo.

Olhando para a frente, enxerga-se no horizonte a sétima edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em novembro, em Belo Horizonte. A programação conta com mais de 60 convidados.

Vendo pelo retrovisor, a lista de eventos se torna ainda mais gorda: Fest Comix, em São Paulo, Gibicon, em Curitiba, Feira de Autores, em Salvador, para limitar a três exemplos.

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Há neste 2011 uma concentração de eventos de quadrinhos. Alguns são tradicionais, casos do FIQ e do Fest Comix. Mas tantos assim, um atrás do outro, indica algo novo no ar.

A pergunta que fica, ainda sem uma resposta muito clara, é por que este ano concentrou uma gama tão grande de encontros de histórias em quadrinhos, em diferentes estados?

Embora os motivos disso ainda sejam um pouco nublados, é possível trilhar um caminho de resposta. Um, não, dois caminhos.

A primeira trilha leva a um seleto grupo de pessoas que dedica boa parte do tempo livre para dar vez e voz à área. Muitos dos eventos só existiram por terem organizadores assim.

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Outro caminho de resposta se pauta em questões comerciais. Não é equivocado supor que alguém tenha interesse em capitalizar com publicações em quadrinhos.

Pode não ser um retorno apenas imediato, como a venda de publicações diretamente aos leitores que passaram pelos estandes.

Pode ser a longo prazo, com olhos na formação de público. Planta-se hoje para colher num segundo momento. Algumas editoras e livrarias figuram seguramente nesse rol.

Há certamente outros motivos, que peço aos leitores do blog a ajuda de elencar. Mas fato é que os eventos estão aí e trazem, com eles, uma gama de lançamentos diferentes.

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Há uma tendência de as editoras aproveitarem oportunidades assim, com amplo público, para expor pela primeira vez alguns de seus lançamentos. Basta ver o passado recente.

Na Fest Comix, no meio do mês, foram lançados os nacionais "Calafrio" e "Zoo" e os estrangeiros "Recruta Zero - Anos Dourados", "Asterios Polyp", "Zumbis" e "Macanudo 4".

Na Rio Comicon, nos últimos dias, outro tanto: "Kardec", "Todo Mundo é Feliz", "1001", "O Louco, a Caixa e o Homem", "Lucille", entre outros. No FIQ, vai haver outro tanto. Fora os mangás, que representam uma fatia generosa das vendas do mercado brasileiro de hoje. 

Mas fica outra pergunta no ar, também sem uma resposta muito clara: como o mercado irá responder a isso nos próximos anos. É algo para ir acompanhando de perto.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h47
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14.10.11

Carta aberta à revista Veja

Prezados,

li com atenção à reportagem publicada na edição desta semana de "Veja", intitulada "A Pedagogia do Garfield", sobre a presença de questões de literatura na prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), elaborado pelo governo federal.

Afora a validade e a pertinência da pesquisa realizada por docentes do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), parece-me haver alguns equívocos na leitura do estudo e na forma como foi comparado com as histórias em quadrinhos.

A respeito da leitura dos dados, a revista diz que "a literatura está virtualmente ausente do Enem" e que o importante para o jovem que presta a prova "é saber interpretar uma história em quadrinhos". Há, nisso, uma interpretação errônea do estudo, cujas conclusões são reproduzidas pela própria publicação.

Tabela apresentada na reportagem dá conta de que o Enem pautou seus enunciados em textos de poesia (58 questões), crônica (21), romance (20), conto (5) e drama (1). O total, portanto, chega a 105 questões sobre gêneros literários, número maior que os demais itens, histórias em quadrinhos (32), crítica (21) e canção (14).

Logo, há presença, sim, de literatura no exame, ao contrário do que sugere a reportagem. E presença três vezes maior que o volume de histórias em quadrinhos.

Deve-se concordar, no entanto, com a interpretação de que romancistas importantes de nossa literatura - e o romance em si - tenham sido pouco ou quase nunca trabalhados em questões da prova. Isso se configura um ponto a ser reavaliado pelos responsáveis pelo Enem. Mas dificilmente irá gerar no ensino médio o desaparecimento da literatura caso a situação assim continue, como indica uma das entrevistadas da matéria.

O outro ponto da reportagem que nos parece carecer de ajuste é no tocante à forma como a pesquisa foi comparada com as histórias em quadrinhos. Há dois aspectos a serem observados sobre isso.

O primeiro é que se trata de analogias distintas. A literatura é composta de diferentes gêneros, como bem ilustra a arte que compõe a matéria e já citada nesta carta. O mesmo vale aos quadrinhos. Estes possuem uma gama ampla de gêneros, como as tiras cômicas, as histórias infantis, as de super-heróis e as reportagens em quadrinhos, para ficarmos em quatro exemplos.

Vê-se, portanto, que comparar cinco gêneros literários (poesia, crônica, romance, conto e drama) com um rótulo que abriga diferentes outros gêneros, caso dos quadrinhos, configura algo inarticulável e, por consequência, nubla uma eventual tentativa articulação dessa ordem.

O segundo aspecto a ser observado no tocante à forma como os quadrinhos foram trabalhados na matéria é a sugestão de que exista uma hierarquia de leituras, na qual tiras como "Garfield", "Mafalda" e "Hagar" - todas usadas no Enem - estariam num grau de complexidade e qualidade inferior ao literário. Isso fica expresso na matéria em trechos como:

  • "A começar pela valorização desmesurada das histórias em quadrinhos - o segundo gênero mais cobrado na prova, atrás apenas de poesia (veja o quadro abaixo) -, o exame mostra desproporções e equívocos de toda ordem."
  • "Não seria mau que, em uma prova destinada a avaliar todos os conteúdos do ensino médio, cerca de 13% das questões fossem dedicadas à cultura literária. Mas esse número inclui modalidades como histórias em quadrinhos e letras de canções populares, respectivamente segundo e sexto lugares entre os gêneros mais exigidos no Enem."
  • "O Enem contribui para construir um país mais iletrado."

Há um explícito tom de espanto da reportagem tanto sobre o volume de questões pautadas em histórias em quadrinhos (32) quanto pelo conteúdo por estas apresentado, que ajudaria a construir um país "iletrado".

Uma vez mais, são comparações de ordens diferentes. Não se pode atribuir ao pouco volume de questões sobre romances e seus autores à pura presença de questões sobre quadrinhos que, reitera-se, aparecem em menor número que as literárias.

Existem pesquisas que comprovam o volume de informações a serem acionadas pelos leitores no processo de construção de sentido de uma tira cômica, como as elencadas pela reportagem e trabalhadas no Enem. Ler um texto assim, verbal escrito e visual, integra a Lei de Diretrizes Básicas da Educação e as orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), ambos instaurados no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pertence aos PCN também a nomenclatura "Linguagens, códigos e suas tecnologias", usada para o ensino médio e que causou outro estranhamento exposto na reportagem ("... podem ser usados para avaliações de gramática (se é que a palavra ainda faz sentido no meio das tais linguagens, códigos e suas tecnologias)".

Nesse ponto, o Enem acerta. As histórias em quadrinhos, em seus diferentes gêneros, configuram um texto peculiar para a produção do sentido, por conta da articulação entre imagem e palavra . Tal articulação soa simples, mas não é.

No Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) aplicado em 2007 a alunos do terceiro ano do ensino médio, 78,8% dos estudantes tiveram rendimento "abaixo do adequado", ou seja, inferior ao esperado para a série que cursam, em uma prova que contava com uma tira de "Hagar, o Horrível" entre as questões, mesmo personagem e série utilizado no Enem.

Não é de estranhar que vestibulares importantes, como o da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), valham-se do recurso das tiras para compor suas questões (no caso da Unicamp, elas estão presentes desde 1990). As capacidades esperadas do aluno estão não apenas na articulação entre imagem e palavra, mas na construção do sentido de humor pretendido a partir delas.

É de suma importância o levantamento feito pelos docentes da UFRGS e trazido a público por "Veja". Mais do que uma pesquisa, trata-se de um alerta sobre os rumos como a literatura vem sendo trabalhada num dos principais mecanismos de seleção ao ingresso universitário vigentes no país e que carece de constante leitura crítica.

Mas não se pode atribuir aos acertos do exame uma suposta culpa pelos equívocos. Literatura e quadrinhos são produções textuais de diferentes ordens, com distintos gêneros autônomos, cada um igualmente válido e com peculiaridades próprias no processo de construção do sentido. Espera-se que o estudante brasileiro seja proficiente nesse processo plural de leitura.

Sem mais,

Paulo Ramos
Jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo

Escrito por PAULO RAMOS às 11h35
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