13.11.11

FIQ 2011: a base de lançamentos independentes

 

  • Festival Internacional de Quadrinhos concentrou volume alto de títulos independentes
  • Entre 40 e 50 publicações autorais foram lançadas especificamente no evento
  • Sétima edição do encontro, realizado em Belo Horizonte, terminou neste domingo

 

Achados e Perdidos. Crédito: Quadrinhos Rasos

 


Os autores independentes foram o principal diferencial da sétima edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), que terminou neste domingo em Belo Horizonte (MG).

É difícil dizer com precisão o número exato de títulos feitos especificamente para serem lançados no encontro bienal. Mas sabe-se que é alto. Fica entre 40 e 50 títulos.´

Foi sem dúvida a maior concentração de publicações autorais novas num único evento, desde que o circuito independente brasileiro ganhou fôlego a partir de 2007.

O volume aumento se forem somadas outras obras, lançadas em eventos anteriores (caso do Rio Comicon, em outubro) ou ao longo dos demais meses do ano.

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Dou um exemplo pessoal para dar uma dimensão numérica do cenário que tento apresentar. Voltei para casa com cerca de 70 obras. Nem cinco delas são de editoras tradicionais.

E olha que os autores independentes tinham uma boa concorrência pela atenção dos visitantes que lotaram os quatro dias do encontro, iniciado na quarta-feira, dia 9.

Eles dividiram espaço com Mauricio de Sousa, homenageado desta edição, e com desenhistas estrangeiros, casos de Horacio Altuna, Bill Sienkiewcz e Cyril Pedrosa.

(Sobre os estrangeiros, de tão acolhedores que eram com todos, gerou este comentário ouvido por lá: "Parece que a organização do FIQ seleciona esses autores pela simpatia".).

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Os números independentes se sobrepuseram também nos estandes, situados no centro, no fundo e no canto esquerdo da Serraria Souza Pinto, no centro de BH, local do evento.

Se a conta não engana, apenas quatro desses espaços eram ligados ao circuito comercial: a livraria Leitura, da capital mineira; a loja Comix, de São Paulo; a Itiban, de Curitiba.

O quarto espaço comercial era da editora Nemo, que lançou seis álbuns no FIQ, a maior parte adaptações literárias. A Leya/Barba Negra trouxe outros dois, ambos nacionais.

O restante era todo tomado pelos autores, vindos de diferentes estados. Com material novo aliado ao catálogo já existente, protagonizaram um momento histórico da HQ nacional.

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Não é exagero rotular esse caso como histórico. Vale reforçar: nunca antes houve tantas publicações independentes novas concentradas num mesmo espaço físico.

Pode-se contra-argumentar que houve o mesmo em eventos anteriores como o Rio Comicon, em outubro, ou no Gibicon, em Curitiba, em julho. Sim, mas não tanto assim.

Mais: o que foi lançado nos outros encontros de quadrinhos realizados ao longo do ano retornou agora neste FIQ e se somou ao que havia de novo.

Outro aspecto que singularizou esse momento foi que, ao lado da quantidade, percebia-se também nas obras produções graficamente bem editadas e com conteúdo à altura.

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É humanamente impossível ler em um par de dias todos os álbuns e revistas independentes trazidos do FIQ. Mas, do pouco que já li, fiquei bem impressionado com o conteúdo.

Como não se pode falar de tudo, pinço apenas um caso como exemplo, o do Pandemônio, nome dado a um conjunto de autores mineiros interessados em publicar quadrinhos.

Eles usaram este FIQ para tornar públicas suas edições impressas e, de certa forma, o próprio selo de publicação. Os poucos títulos que eles lançaram são impressionantes.

Do álbum "Achados e Perdidos", desde já um dos melhores do ano, às histórias humanas de Vitor Cafaggi. Do humor de Ryot ao experimentalismo de Daniel Werneck e Lu Cafaggi.

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Essa presença em massa de autores independentes no FIQ parece trazer um recado, que vem sendo escrito nos últimos três, quatro anos.

A mensagem é que o quadrinista brasileiro não está mais à mercê de ser descoberto pelas editoras, nem as usa como desculpa pela não publicação nacional.

Ideia na cabeça, vertida no papel. Os avanços tecnológicos trazidos pela internet e pelo computador já possibilitam fazer também a edição, antes tão restrita ao circuito comercial.

O objetivo é ser lido e, claro, usar o trabalho impresso como cartão de visitas para outros projetos. E que melhor portifólio que uma história já feita? E, pelo que li, muito bem feita.

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Nota: participei do FIQ a convite da organização do festival.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h18
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03.11.11

Princípio, meio e fim para o quadrinho nacional

Uma discussão recorrente ganhou corpo nesta quinta-feira na rede social Twitter. O pontapé para o debate foi dado pelo desenhista Rafael Grampá e rapidamente se espalhou.

Grampá reproduzia um link para reportagem do "Diário do Vale" de 2 de dezembro de 2009. O texto trazia como título "Cida aprova reserva de mercado para quadrinhos".

Contexto: a pessoa em questão é a ex-deputada federal Cida Diogo (PT-RJ), então relatora da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara.

A matéria fazia referência a parecer favorável dela, emitido em 18 de novembro daquele ano, sobre a criação de uma cota mínima de 20% para quadrinhos nacionais.

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Pelo texto, a implementação seria gradativa. Cinco por cento no primeiro ano, 10% no segundo, 15% no terceiro até chegar aos almejados 20% mínimos no quarto ano.

Não há informação sobre o trâmite seguinte do projeto de lei 6.060-A, de autoria do deputado reeleito Vicentinho (PT-SP). Sabe-se que neste ano se iniciou nova gestão eleita.

De qualquer forma, é pertinente o debate, qualquer que seja o resultado. Sintetizando em uma perguta: é mesmo necessária a criação de uma reserva de mercado nacional às HQs?

O debate no Twitter envolveu autores, leitores e criadores. A maior parte se posicionou de forma contrário à cota. Também compartilho desse opinião.

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Antes de avançar a discussão, é preciso reiterar que ela é recorrente. Um primeiro ensaio dela chegou a ser aprovada pelo ex-presidente João Goulart em 23 de setembro de 1963.

A medida era ainda mais radical: impunha reserva de 60% a ser alcançada num intervalo de três anos.

Um dos argumentos, não custa nada registrar, era baseado no fato de que "muitas dessas publicações inserem história de cunho político-ideológico, ou estampam cenas altamente prejudiciais à boa formação moral e mental da adolescência e da infância".

A lei entraria em vigor em 1964. O golpe militar a matou. Quase 50 anos depois, o que o projeto de lei elaborado pelo deputado Vicentinho procura fazer é algo muito semelhante.

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O ideal é que o quadrinho produzido no país se auto-imponha, e não que se obrigue uma produção desenfreada e sem um critério qualitativo muito claro.

O risco é que, para cumprir a regra, editoras de quadrinhos publiquem o que estiver à mão, apenas para cumprir uma exigência legal. Isso não significa fomento ao mercado.

Outro ponto em aberto: o que exatamente é uma editora de quadrinhos?

Como ficaria uma empresa que pretende lançar apenas um álbum estrangeiro? Como ficaria a cota numa situação dessas? Para cada obra de fora, algo equivalente nacional?

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Nesse debate, há que se separar o princípio, o meio e o fim.

O princípio da lei, até prova em contrário, é bem intencionado. Procura fomentar a produção brasileira de histórias em quadrinhos, algo tentado há décadas no país.

Não se tem uma pesquisa a respeito, mas é de se esperar que não haja divergências quanto a esse princípio. Parte-se da premissa de que todos concordam com a produção nacional.

O mesmo valeria para o fim. A finalidade é tornar mais produtivo um setor que tem muito ainda a melhorar. O nó fica, então, com o meio para se chegar a isso.

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O meio proposto pelo projeto de lei é bem claro: reserva mínima de 20%. Mas é possível encontrar outro caminho, proposto pelo próprio texto de lei.

O artigo quinto do projeto registram que o poder público "implementará medidas de apoio à produção de histórias em quadrinhos nacionais".

O artigo sexto inclui ainda bancos e agências de fomento.

Se se tem de criar uma lei para o setor, a entrada talvez seja essa.

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Já há uma bem-sucedida experiência nesses moldes feita nos últimos quatro anos no Estado de São Paulo. Trata-se do ProAC, uma lei de incentivo à produção cultural.

No caso da área de quadrinhos, as regras têm sido as mesmas. O autor, que tem de morar no Estado, apresenta um projeto de história em quadrinhos ou coletânea de tiras.

Dez são selecionados a cada edição. O quadrinista contemplado recebe verba de R$ 25 para produzir e editar a obra. Fica a critério lançar por uma editora ou de forma autônoma.

A um custo anual de R$ 250 mil, muito para o padrão do brasileiro e nada para o orçamento paulista, conseguiu-se fomentar produção e mercado, com mais de cem inscritos em 2011. 

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Por que não uma lei como essas em âmbito federal? A seleção - que deveria ser acima de suspeitas - garantiria a qualidade dos projetos. Mas com ajustes.

O quadrinista teria um prazo de oito meses para lançar o álbum - seis de produção e dois de edição e impressão -, tal como ocorre no modelo paulista.

Mas o valor a ser pago a cada autor poderia aumentar para R$ 35 mil. Explicando a quantia: cinco a dez mil para impressão e o restante para pagar o tempo dedicado à produção.

O volume de projetos aprovados também deveria aumentar. Digamos uns 50 por ano, uma média de quatro por mês. Número bastante razoável.

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Haveria, claro, contrapartes (não se pode esquecer de que se trata de dinheiro público).

Os autores teriam de imprimir dois mil exemplares e doar 500 a bibliotecas do estado a que pertence, previamente cadastradas.

Já passou da hora de as bibliotecas serem vistas como locus de fomento à leitura no país. E parte do acervo deveria ser dedicado a quadrinhos. A medida ajudaria nesse sentido.

Outro ponto seria a necessidade de os autores fazerem palestras ou oficinas nessa mesma biblioteca, aproximando a obra ao leitor e, assim, estimulando o contato com ela.

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Os custos anuais são irrisórios se comparados ao orçamento federal. Mas chegam a ser menores que os custos anuais do gabinete de apenas um deputado federal.

Isso ajudaria a estimular a produção e a leitura. Mas haveria um risco: criar uma espécie de comodismo por parte de editoras, que ficariam apenas à espera dos projetos aprovados.

Para inibir isso, duas medidas. Primeira: uma das contrapartes seria estipular a necessidade de comercialização da obra a preços mais acessíveis.

O autor também teria direito a uma fatia maior dos direitos autorais, posto que a obra irá ajudá-lo a viver de quadrinhos durante aquele período.

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A segunda medida concreta seria alcançada com outra medida legal. Reduz-se o imposto das obras nacionais produzidas pelas editoras. Mantém-se o dos títulos estrangeiros.

Não se obriga a publicar uma cota nacional. Nem se proíbe os títulos estrangeiros - há muita coisa boa que merece ser lida. Mas se incentiva, de fato, projetos brasileiros.

Desnecessário lembrar que, se adotada em escala estadual, tais medidas aumentariam exponencialmente a produção.

Outra recomendação poderia estar vinculada às compras de quadrinhos para bibliotecas escolares. Por que não uma cota de títulos nacionais (e não de adaptações literárias)?

                                                          ***

São ideias. E, como tais, estão sujeitas ao necessário debate, assim como o projeto de lei, que, pelo exposto, não irá resolver a questão a contento. Isso se for mesmo aprovado.

Basta notar o papel que os álbuns nacionais já têm conseguido nos dois últimos anos no país. Sem leis como essa, muitos deles se impuseram pela qualidade.

Fecho com uma pensata dita pelo professor Hector Fernández L´Oeste, em palestra feita em agosto durante as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos.

Ele dizia ver nas livrarias brasileiras 25% de quadrinhos nacionais. E questionava: ocorre o mesmo nos Estados Unidos e Japão? Claro que não. Aí é que está o problema.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h31
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