30.12.11

2011: o ano em que o quadrinho nacional aconteceu - II

 

 Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon

 

Tão inusitado foi este 2011 para o autor nacional que um dos títulos estrangeiros mais comentados do ano, tanto dentro quanto fora do país, foi produzido por uma dupla de brasileiros. "Daytripper", dos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, foi o destaque do ano. No exterior, venceu nos Estados Unidos os prêmios Eisner Award e Harvey Award, respectivamente como melhor minissérie e melhor história ou edição individual.

No Brasil, foi indicada como o segundo melhor lançamento do ano em duas listas feitas por pessoas que noticiam quadrinhos, a da revista virtual "O Grito" e a do blog "Gibizada". Em primeiro lugar, ficou "Asterios Polyp", de David Mazzucchelli (Quadrinhos da Cia.), premiada com o Eisner em 2010.

Os números de vendas no Brasil apenas confirmaram a repercussão de "Daytripper". Produzido em capa dura pela Panini, o álbum viu os primeiros três mil exemplares esgotarem logo na primeira semana de lançamento, em setembro. Nova tiragem de três mil, novo esgotamento nos meses seguintes. A editora imprime neste fim de 2011 outros 12 mil exemplares, metade deles em capa cartonada e preço mais em conta. No total, em quatro meses, a obra atingiu uma tiragem de 18 mil números. Um fenômeno editorial.

Seria um equívoco rotular "Daytripper" como nacional, apesar de feita por brasileiros. A história foi publicada originalmente no prestigiado selo Vertigo, que reúne trabalhos autorais e adultos da editora norte-americana DC Comics, a mesma de Batman e Super-Homem. A minissérie, em dez partes, foi reunida no início do ano num álbum, que integrou a lista dos mais vendidos da categoria em ranking do jornal "The New York Times". Só no segundo semestre ganhou uma versão nacional, vertida para o português pelo tradutor e especialista em quadrinhos Érico Assis. Por ser ambientada em diferentes partes do Brasil, a série parece funcionar melhor em português.

Difícil resumir a história sem antecipar o enredo ao leitor. Pode-se dizer que se trata de uma engenhosa narrativa sobre a vida e as mortes inesperadas de um escritor de obituários, Brás de Oliva Domingos. Mortes, no plural mesmo. E, por meio delas, contam-se momentos presentes, passados e futuros do protagonista.

Gabriel Bá conta que teve a ideia da trama ao olhar pela janela do banheiro, durante o banho. De onde estava, conseguia avistar uma favela. Pela distância, seria possível ser atingido por uma bala perdida. E se isso acontecesse mesmo? A partir desse insight, desenvolveu a história em parceria com o irmão.

Curioso que houve pelo menos um caso assim registrado no país, o de Older Cazarré. Ator de programas de humor da TV Globo e dublador (ficou famoso por dar voz ao personagem Dom Pixote dos desenhos animados da dupla Hanna-Barbera), morreu em fevereiro de 1992, aos 57 anos. Foi atingido por uma bala enquanto dormia em seu apartamento, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.

 

Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon 

 

"Daytripper", criada por brasileiros, conseguiu projeção num ano bastante generoso de boas obras estrangeiras, estas feitas por autores de fora do país, de diferentes partes. Além do já citado "Asterios Polyp", o leitor brasileiro teve contato com os europeus "Lucille" (de Ludovic Debeurme, pela editora Barba Negra), "Três Sombras" (Cyril Pedrosa, Quadrinhos na Cia.), "Fidel Castro em Quadrinhos" (Reinhard Kleist, 8Inverso), "Castelo de Areia" (Pierre Oscar Lévy e Prederik Peeters, obra estreante da Tordesilhas) e "A Chegada", de Shaun Tan, história muda e que figura entre as melhores do ano.

A estrente editora Nemo resgatou alguns trabalhos importantes e inéditos no país. Trouxe de volta a série italiana "Corto Maltese", de Hugo Pratt, os incômodos relatos de guerra de "Era a Guerra das Trincheiras", do francês Jacques Tardi, e iniciou uma coleção com histórias de Moebius. Os dois primeiros foram "Azrach" e "Absoluten Calfreutrail & Outras Histórias".

Estreitou-se um pouco mais a edição de trabalhos argentinos, até então raros no país. A maior parte foi lançada pela editora Zarabatana. As tiras de "Macanudo" ganharam um quarto volume (de autoria de Liniers), o álbum "Noturno" teve uma edição nacional (com os desenhos detalhados de Salvador Sanz) e conteúdo da revista "Fierro", a principal da Argentina, foi reunido em forma de livro, dividido com quadrinistas nacionais (Danilo Beyruth, Gustavo Duarte, Adão Iturrusgarai, Eloar Guazzelli e outros). A Marca de Fantasia, de João Pessoa, reuniu histórias de "Carne Argentina", produzida por autores do grupo de La Productora.

Dos Estados Unidos, pôde-se ler o até então inédito "Mundo Fantasma" (Daniel Clowes, GAL) e novos volumes de "A Liga Extraordinária", ambientada em 1969 (Alan Moore e Kevin O´Neil, Devir), de "The Umbrella Academy" (desenhada por Gabriel Bá, Devir)e da viciante "Os Mortos-Vivos" (Robert Kirkman e Charlie Adlard, HQM).

Houve também reedições da erótica "Black Kiss" (Howard Chaykin, Devir) e de tiras históricas de "Peanuts" (quarto volume da série da L&PM), "Recruta Zero" (Mort Walker, Kalaco) e "Agente Secreto X-9" (Dashiell Hammett e Alex Raymond). Houve ainda a sequência de boas séries da Vertigo, via Panini, casos de "Fábulas", "Y - O Último Homem", "Ex Machina" e "Preacher", que, enfim, teve o último número lançado no Brasil.

A Panini também publicou séries da Vertigo numa revista mensal homônima. Duas merecem destaque: "Escalpo" e "Vampiro Americano". Esta é desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque e foi premiada como melhor nova série no Eisner Award e no Harvey Award.

                                                        ***

Os títulos da Vertigo dividiram as prateleiras das bancas com os super-heróis norte-americanos, os mangás japoneses, os personagens Disney, os faroestes italianos, Luluzinha em versão adolescente (produzida no Brasil) e infantil (trabalho original, produzido nos Estados Unidos nas décadas de 1940 e seguintes) e as revistas de Mauricio de Sousa.

"Turma da Mônica Jovem" continuou em evidência. A tiragem, entre 300 mil e 400 mil exemplares, segundo números da assessoria do desenhista e empresário, foi superior a de títulos estadunidenses dos heróis da Marvel e DC Comics. A revista também lidera as vendagens do setor no Brasil, vendendo mais que a versão tradicional de Mônica.

Os Estúdios Mauricio de Sousa continuaram também apostando em novos projetos. Um deles foi o terceiro volume de "MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Novos Artistas", lançado no começo do segundo semestre. Talvez por se ancorar na mesma fórmula (histórias feitas por diferentes artistas), o álbum não teve a mesma repercussão que os dois anteriores, publicados em 2009 e 2010. Por outro lado, ganhou bastante destaque, inclusive na chamada grande mídia, o anúncio de quatro álbuns que serão produzidos com os personagens da Turma da Mônica, feitos por Vítor e Luciana Cafaggi, Gustavo Duarte, Shiko e Danilo Beyruth.

A Abril teve um nítido interesse em diversificar e ampliar seus títulos ao longo de 2011. Houve mais almanaques e especiais com os personagens Disney, publicou quatro volumes com histórias juvenis baseadas em animações de heróis da DC Comics (Super-Homem, Batman, Liga da Justiça e Joves Titãs) e encerra o ano com três revistas nacionais, "Gemini 8", da empresa TV Pinguim, "UFFO - Uma Família Fora de Órbita", de Lucas Lima, e "Garoto Vivo - Na Villa Cemitério", de Fabricio Pretti. Os dois últimos foram os trabalhos vencedores do Prêmio Abril de Personagens, realizado pela editora. O quadrinho de banca não está morto, como muitos apregoam, ancorados nas altas vendas do passado.

                                                         ***

Analisado em perspectiva, o ano de 2011 confirma algumas tendências: livrarias como pontos sólidos de vendas de quadrinhos; interesse editorial em adaptações literárias e em álbuns nacionais; vontade de os autores produzirem por conta e mostrarem serviço, em vez de ficarem esperando que algo aconteça; surgimento de histórias longas interessantes, num país que há menos de uma década dizia ser desprovido de bons escritores para narrativas de maior fôlego; mercado estrangeiro como alternativa para expor obras e/ou atuar; veiculação de histórias na internet para serem, depois, compiladas em papel; diversificação de títulos e gêneros; as tiras dos jornais são sombreadas pelas da internet.

Outra constatação é que ocorre uma redução no espaço que separa(va) os autores independentes e as editoras. Esse raciocínio foi percebido por Fabiano Barroso, editor da revista independente mineira "Graffiti 76% Quadrinhos", e é de se concordar com ele. Os quadrinistas que se autopublicam já conseguem tiragens e qualidade gráfica semelhantes às editoras de quadrinhos. Parte destas é mantida por uma, duas, três pessoas, que acumulam as funções administrativas com as editoriais.

Foi um ano em que o quadrinho nacional aconteceu.

E, ironicamente, no mesmo ano em que ganhou corpo o projeto de lei que estipula uma reserva de mercado de 20% para quadrinhos nacionais (nos jornais, 50%), tema acaloradamente debatido por autores, editores e leitores nas redes sociais, este blog inclusive. O texto, discutido na Câmara dos Deputados, ingressa em 2012 no Senado. Se aprovado lá, passa a sanção presidencial. É uma lei que, se aprovada e se for mantido o cenário atual, já entra em vigor obsoleta.

Pode-se questionar se essa tendência de volume de produção nacional será mantida daqui para a frente. Difícil dizer, até porque se trataria de previsão, e não de constatações. De concreto, já há anúncios de novos álbuns e adaptações nacionais para 2012, boa parte fruto do edital paulista do ProAC.

Mas pode-se analisar a questão por outro ângulo. Há cinco anos, alguém imaginava que veria tantos trabalhos nacionais publicados no país? Confesso que não. Trata-se, é fato, de um cenário bem mais promissor do que o de então.

E leitores e autores parece terem criado gosto pela coisa. Esse é o diferencial.

                                                         ***

Leia a primeira parte desta resenha na postagem abaixo.

                                                         ***

Aproveito para deixar a todos os votos de uma ótima virada de ano e de um 2012 ainda mais realizador. Até o ano que vem.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h38
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27.12.11

2011: o ano em que o quadrinho nacional aconteceu

 

  • Volume de trabalhos brasileiros publicados neste ano foi o maior da história
  • Produção circulou entre editoras, páginas virtuais e de forma independente
  • Número de encontros sobre quadrinhos no país também foi recorde

 

Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente, de Lourenço Mutarelli. Crédito: Quadrinhos da Cia.

 

Há que se ponderar que a situação, do ponto de vista do autor de quadrinhos, ainda não é a ideal. Trabalha-se muito, ganha-se pouco, muitos nem recebem pelo serviço, fazem por amor à arte. Feita a ressalva, há também que se registrar que este foi um ano histórico para a produção brasileira. Nunca o país produziu tantas histórias como neste 2011. Isso fica claro se for observada a soma dos catálogos das editoras, o volume de obras independentes lançadas e o circuito de sites e blogs autorais dedicados ao tema.

Mais do que quantidade, viu-se também qualidade e pluralidade de gêneros, temas, formatos e suportes. As narrativas longas, tendência externa que ganhou espaço a passos largos nos últimos anos no Brasil, parece terem se enraizado de vez no solo editorial nacional. Foram poucas as editoras da área que não apostaram no setor. A maioria com mais de uma publicação. As livrarias se somaram às lojas especializadas em comercializar quadrinhos como fonte de escoamento dos títulos.

Não há números sobre vendas, algo que costuma ser divulgado pelas editoras apenas quando são informações atraentes. Há, no entanto, alguns dados. As tiragens ficam entre mil e três mil exemplares. Mais em casos esporádicos. O catálogo da Quadrinhos da Cia. também costuma ultrapassar essa marca. Foi o caso de "Quando Meu Pai se Encontrou com o ET Fazia um Dia Quente", que marca a volta de Lourenço Mutarelli aos quadrinhos. O álbum teve 6 mil cópias, segundo informe da Companhia das Letras repassado aos leitores. A obra, feita na forma de livro ilustrado, foi lançada no começo de dezembro.

Outro álbum que teve os números disponibilizados foi "Histórias do Clube da Esquina", de Laudo Ferreira Júnior. O trabalho biográfico sobre Milton Nascimento, Fernando Brant, Lô Borges e outros integrantes do movimento musical mineiro teve quase todos os 3 mil exemplares vendidos em quatro meses. A obra foi uma das dez escolhidas na edição de 2010 do ProAC (Programa de Ação Cultural). O mecanismo de apoio cultural do governo do Estado de São Paulo foi um dos principais impulsionadores de narrativas longas. Cada autor selecionado recebe R$ 25 mil para produzir a obra.

O edital paulista gerou também trabalhos como "Carcará" (Qualidade em Quadrinhos), de Aloísio de Castro, uma história de cangaceiro com verniz de faroeste que figura entre os destaques do ano, e "Vermelho, Vivo" (Cristina Judar e Bruno Auriema, Devir). A maior parte dos trabalhos foi feita em parceria com editoras. Estas, no entanto, fizeram apostas próprias, inclusive com autores estreantes em histórias longas. Apesar de novos no formato, começaram bem. Casos de Kerouac (João Pinheiro, Devir), "Yuri - Quarta-Feira de Cinzas" (Daniel Og, Conrad), "EntreQuadros - Círculo Completo" (Mario César, Balão Editorial), "A Balada de Johnny Furacão" (Eduardo Filipe, o Sama, Flaneur, reeditada no final do ano pela Kalaco), "Garoto Mickey" (Yuri Moraes, Dobra Quadrinhos), "Automatic Kalashnikov 47" (Luciano Tasso, Annablume) e "São Jorge da Mata Escura" (Marcello Fontana, André Leal, Antônio Cedraz e Naara Nascimento, RV Cultura e Arte). 

"Oeste Vermelho" (Devir), dos também estreantes Magno e Marcelo Costa, foi uma das boas surpresas do ano. Os irmãos gêmeos narram uma história de faroeste em que um rato sai em vingança contra os gatos que mataram sua família. A obra é resultado de parceria com a Quanta Academia, de São Paulo. A escola de artes seleciona trabalhos que julga relevantes e os encaminha para a editora Devir publicar. Outra surpresa foi trazida por Julius Ckvalheiyro, com o álbum "Guerra: 1939-1945" (Conrad). Narrado num estilo que mescla luz e sombras, apropria-se de um gênero pouco explorado no país, ainda mais numa história de maior fôlego.

Aos novos somam-se novos trabalhos de autores que já experimentaram esse modo de narrar quadrinhos em produções anteriores. Marcelo d´Salete ("Encruzilhada"), Rodrigo Rosa e Carlos Ferreira ("Kardec") e André Diniz ("Morro da Favela") marcaram os primeiros álbuns nacionais da Barba Negra, parceria com a editora portuguesa Leya. O trabalho de Diniz, uma biografia do fotógrafo carioca Maurício Hora, figura entre as melhores obras de 2011, incluídas as estrangeiras.  José Aguiar, Dw Ribatski e Paulo Biscaia fizeram uma leitura de trechos de peças de Biscaia em "Vigor Mortis Comics" (Zarabatana). Houve ainda três novas visitas a personagens já apresentados ao leitor. Nestablo Ramos Neto concluiu a segunda parte de "Zoo" (HQM), série pautada na interação entre humanos e animais. Danilo Beyruth também deu sequência às histórias do herói do além "Necronauta" (Zarabatana). Eduardo Schloesser revisitou seu Zé Gatão na aventura "Memento Mori" (Devir).

Três coletâneas tiveram curiosamente pontos coincidentes: reeditavam histórias já lançadas em álbuns anteriores ou em outras publicações e agregavam a elas novas narrativas; trabalhavam a identidade do brasileiro, em diferentes regiões do país; traziam histórias curtas, como se fossem contos em quadrinhos; obtiveram resultados artísticos singulares, cada uma a seu modo. André Toral mesclou o lado urbano do brasileiro de hoje com relatos de ontem em "Curtas e Escabrosas" (Devir). Marcello Quintanilha deu nova cara a um álbum publicado nos primeiros anos da Conrad, rebatizado agora de "Almas Públicas" (lançado pela mesma editora). O principal alvo são os fluminenses. Lélis trouxe de volta o álbum "Saino a Percurá", lançado uma década antes, e colou no título um "Ôtra Vez" (Zarabatana). O desenhista, especialista em aquarela, conta causos do sertão mineiro.

Merece registro especial a reunião das cem páginas que compuseram a história do "Garra Cinzenta" (Conrad). A reedição, em formato livro, trouxe - ou apresentou - ao leitor um dos primeiros quadrinhos adultos produzidos no país. Foi escrito por Francisco Armond (um pseudônimo),  desenhado por Renato Silva e publicado no final da década de 1930. Mais do que isso, ajudou a corrigir algumas informações histórias que eram reproduzidas acriticamente, sem que se tivesse contato com o trabalho original. Uma delas é que se tratava de uma aventura de terror. A leitura revela uma trama de mistério, com toques de história de detetive.

                                                         ***

Lélis publicou outro álbum neste 2011, uma versão em quadrinhos de "Clara dos Anjos", romance de Lima Barreto (1881-1922).  A obra foi feita em parceria com o roteirista Wander Antunes (para o Quadrinhos da Cia.). Adaptações como essa se configuraram num filão à parte, que tem rendido oportunidades de trabalho a autores nacionais. Das mais de 30 produções assim lançadas ao longo do ano, cerca de um terço foi produzida no país. O objetivo é atingir as gordas compras governamentais, que incluem tais álbuns nas listas de títulos levados às escolas. A principal é o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do governo federal. Das 7 obras selecionadas neste ano pelo edital, 3 eram adaptações (apenas uma nacional, uma leitura de Romeu e Julieta com os personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa).

Os editores costumam não deixar explícito o interesse nessas listas. São raras declarações como a dada por Fabricio Waltrick, da Ática, durante o 7º FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), realizado em novembro em Belo Horizonte. Sobre o assunto, sem nenhum receio, ele justificou o interesse da empresa no setor para atender à demanda gerada pelas compras do governo. A editora publicou neste ano uma versão quadrinizada de "A Escrava Isaura" (por Eloar Guazzelli e Ivan Jaf) e investiu em álbuns infanto-juvenis estrangeiros.

Os motivos do receio de muitos dos editores são um tanto nublados. Trata-se, de fato, de um bom negócio. Uma compra do PNBE varia entre 15 mil e 75 mil exemplares. Mesmo vendidos com desconto, gera-se um generoso lucro. E, em paralelo, cria um ramo de produção nacional. A Nemo, estreante no meio editorial, pôs no mercado no segundo semestre o maior volume de produções nacionais do setor neste ano. Foram três adaptações de William Shakespeare ("Otelo", "Sonhos de uma Noite de Verão" e "Romeu e Julieta") e uma do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis (por Wellington Srbek e José Aguiar).

Não é a regra, mas se podem obter bons resultados com as adaptações. Houve três casos assim em 2011. "Auto da Barca do Inferno", de Laudo Ferreira Júnior, soube trazer para os quadrinhos o tom da linguagem teatral, como a peça foi inicialmente concebida pelo português Gil Vicente, em 1516. Outros dois resultados diferenciados foram obtidos por meio de leituras visuais do conteúdo dos textos originais, buscando transpor em imagens as palavras originais. Foram os casos dos poemas "A Cachoeira de Paulo Afonso", de Castro Alves (1876), adaptado por André Diniz (Pallas) e "Fernando Pessoa e Outros Pessoas", uma vez mais por Eloar Guazzelli (Saraiva). 

Para 2012, avistam-se pelo menos mais cinco adaptações literárias em quadrinhos, todas elas produzidas por autores nacionais.

As narrativas mais longas - que os países de língua hispânica rotularam com o nome de "novela gráfica" - não se restringiram apenas ao circuito editorial. Circularam também pelo meio independente. O primeiro trabalho do ano, bancado pelo próprio autor, foi o quarto número de "Nanquim Descartável", série sobre duas amigas, criada pelo roteirista paulista Daniel Esteves. A obra foi lançada no fim de janeiro e foi a que mais se destacou no primeiro semestre, tímido de produções assim. Os seis meses seguintes, ao contrário, tiveram uma overdose de títulos alternativos, capitaneados pela história muda "Birds", de Gustavo Duarte, que começou a ser vendida no Brasil no final de agosto, e pelo décimo volume de "Café Espacial", em formato almanaque e com mais páginas que as edições anteriores. O mesmo Daniel Esteves assinou dois outros bons trabalhos, "O Louco, a Caixa e o Homem", em parceria com Will, e "Três Tiros, Dois Otários", com Caio Majado.

O que parece ter instigado a concentração de lançamentos independentes vista no segundo semestre foram dois encontros da área, a Rio Comicon e o já mencionado 7º FIQ. Muitos autores esperaram pelos dois eventos para mostrar seus trabalhos. O FIQ, em particular, foi inundado por quadrinistas que se autopublicam. Dos estandes que tomavam o fundo e a lateral esquerda da Serraria Sousa Pinto, onde o festival foi realizado, apenas quatro não eram de quadrinistas. Ao todo, foram lançados lá entre 40 e 50 títulos autorais, produzidos em diferentes partes do país. Foram um dos destaques do encontro, que recebeu 148 mil pessoas, segundo a organização. Dezoito mil a mais do que recebeu em julho no mesmo ano a San Diego Comic-Con, uma das mais visitadas convenções norte-americanas da área.

Difícil listar todos os lançamentos independentes do festival mineiro sem cometer a injustiça de deixar algum de fora. Houve até histórias em forma de CD, caso de "St. Bastard - O Orgulho de Cucamonga", de Leonardo Martinelli e Raphael Salimena. Mas dois casos ajudam a ilustrar bem o tema. O primeiro é o grupo paulista formado pelos desenhistas João Montanaro, Pedro Cobiaco, Felipe Nunes, Jopa Moraes e Calvin Voichicoski. Na faixa dos 15 anos, talentosos, integram uma nova geração de autores. Eles produziram revistas e pôsteres especificamente para vender no FIQ, num estande dividido com outros desenhistas. Paralelamente, todos mantêm blogs próprios e produzem para diferentes publicações, algumas delas jornalísticas.

O outro exemplo foi a estreia do grupo Pandemônio, uma das revelações do ano. Formado por autores mineiros, eles lançaram alguns pares de obras no FIQ. Pelo menos quatro delas eram trabalhos que merecem ser registrados por conta da qualidade. Duas foram assinadas por Victor Cafaggi, desenhista que ganhou projeção ao criar um blog com uma versão infantil de Peter Parker, alter-ego do Homem-Aranha. Ele publicou uma coletânea de tiras de Valente, personagem publicado nos fins de semana no jornal "O Globo" e que funciona melhor se lido em sequência, e "Duo.Tone", um sensível relato sobre a infância e as fantasias inerentes a ela.

Outro trabalho foi o criativo álbum "Ovelha Negra", que procurou recriar a história e o estilo de uma fictícia revista de décadas passadas (não confundir com o tabloide de humor homônimo, que teve poucos números e que, de fato, existiu). A obra é uma parceria de Daniel Werneck, professor universitário e um dos organizadores do FIQ, e Ryot.  "Achados e Perdidos", mais um álbum gerado pelo selo, tornou-se um dos destaques nacionais do ano. A trama narra a história de um adolescente que, de uma hora para outra, encontra um buraco negro no próprio estômago. A obra foi produzida pela dupla Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho e traz um bastidor peculiar: foi impressa com verba doada por leitores, via site "Quadrinhos Rasos". Os nomes das mais de 500 pessoas que colaboraram aparecem nas páginas iniciais da obra.

A integração entre internet e papel esteve na base de uma série de outros lançamentos, independentes ou não. Confirmou-se neste 2011 a tendência de usar a rede mundial como processo paulatino de produção para, depois, verter o conteúdo - ou parte dele - para o papel. São os casos das coletâneas de tiras de "Ultralafa" (Daniel Laffayete, Barba Negra), "Os Passarinhos" (de Estevão Ribeiro, Balão Editorial), "Rei Emir Saad - O monstro de Zazarov" (André Dahmer, Barba Negra), do autobiográfico "Diário de um Casal" (Ric Milk), do independente "1000 Palavras" (Marcelo Saravá), da série "Um Sábado Qualquer", que repetiu na versão impressa a popularidade da internet (Carlos Ruas, Devir). O livro esgotou em poucos meses e já ganhou nova impressão.

Outra experiência revelante foi vista no segundo semestre. A seção de entretenimento do portal IG passou a veicular histórias em quadrinhos semanais, produzidas especificamente para o site por cinco autores nacionais: Rafael Albuquerque (a ficção científica "Tune 8"), Rafael Coutinho ("O Beijo Adolescente"), Rafael Sica ("Borgo"), Eduardo Medeiros (Roberto") e Raphael Salimena ("Z"). Os dois primeiros reuniram as primeiras partes de suas séries em versões impressas, lançadas no Rio Comicon e no FIQ. Segundo Albuquerque, sua história irá continuar por conta. De acordo com ele, o contrato de seis meses não foi renovado e o espaço não terá sequência em 2012.

Isso sem falar nos vários blogs autorais da internet.

                                                        ***

Tão inusitado foi este 2011 que até mesmo um dos destaques internacionais foi produzido por autores brasileiros. É o caso do fenômeno "Daytripper", de Gabriel Bá e Fábio Moon, um dos temas da segunda parte desta resenha.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h02
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18.12.11

Nos quadrinhos, foi Neymar quem goleou Messi

 

  • Mercado de histórias em quadrinhos na Argentina viveu retração em 2011
  • Volume de lançamentos reduziu se comparado aos últimos cinco anos
  • Mesmo a tradicional revista "Fierro" sentiu queda no número de vendas

 

Capa de Angela Della Morte, de Salvador Sanz

 

A final do Mundial de Clubes, realizada na manhã deste domingo, no Japão, usou uma metonímia para polarizar a disputa. Não seria apenas um embate entre Santos e Barcelona.

Tratava-se, sim, de um confronto entre Neymar e Messi. Ou entre Brasil e Argentina, se visto do ponto de vista sul-americano.

Sabe-se do resultado: os espanhóis golearam o time do litoral sul paulista por quatro a zero. A imprensa argentina chegou a dizer que o "futebol brasileiro foi humilhado".

Exagero dos colegas da imprensa de Buenos Aires, de onde escrevo estas linhas. Assim como também o é o "embate" entre Brasil e Argentina na final do Mundial de Clubes.

                                                         ***

Apesar dos exageros, a metáfora vale e ajuda a visualizar melhor os cenários vividos hoje pelos mercados brasileiro e argentino de histórias em quadrinhos.

Nessa partida, pelo menos, foi Neymar quem levou a melhor. Os times brasileiros tiveram um 2011 excepcional. Na Argentina, o que se viu foi um mercado bem mais tímido.

Houve lançamentos, mas poucos. Metade esteve ancorada em reedições de antigas histórias, lançadas em revistas como "Skorpio" ou "Fierro".

A "Fierro", em particular, responde por três das coletâneas do ano: "Fantagas", de Carlos Nine, "El Sr. y Sra. Rispo", de Diego Parés, e "Angela Della Morte", de Salvador Sanz.

                                                         ***

Mesmo a "Fierro" patinou nas vendas neste ano. Duas fontes confirmaram ao blog que a revista esteva no vermelho há alguns meses. Continua sendo publicada, no entanto.

A publicação sai todo segundo sábado do mês, vendida com o jornal "Página/12". No Brasil, a Zarabatana programa para 2012 uma segunda antologia com conteúdo da revista.

Outro sinal pode ser visto com a Ivrea, principal editora de mangás da Argentina. A empresa deixou de produzir as revistas no país. O que lança, agora, vem da Espanha.

As livrarias já não têm tanta diversidade. As comiquerías - nome das lojas de quadrinhos na Argentina - continuam com farto material, mas com pouco editado no país durante 2011.

                                                          ***

O que se viu foram lançamentos pontuais de diferentes editoras. Mesmo as tradicionaias, como a Doedytores e a Historieteca, reduziram seu catálogo neste ano.

Uma das que mais se destacou foi a Editorial Común, mantida pelo desenhista Liniers. Ele lançou cinco títulos, um deles uma coletânea de histórias autobiográficas suas.

Os demais são "La Ciudad de los Puentes Obsoletos", "Virus Tropical", "Fuye" e o estrangeiro "Umbigo sem Fundo", já publicado no Brasil pelo Quadrinhos da Cia.

Houve também algumas retomadas de histórias antigas de Carlos Trillo, por conta de seu falecimento. O roteirista morreu em maio deste ano, durante viagem à Europa.   

                                                          ***

Há quem diga que parte dessa retração se deve a uma espécie de clima de luto, sentido no meio quadrinístico. À morte de Trillo somou-se outra, de Francisco Solano López.

O veterano desenhista morreu em agosto passado. Ele foi responsável pela arte de "El Eternauta", tida como um dos principais quadrinhos do país.

Como a morte é algo culturalmente muito presente e cultuado na vida dos argentinos, pode-se até supor que esse seja um dos motivos. Mas, seguramente, não o único.

O curioso é que há cinco anos ocorria justamente o oposto, era a Argentina que vivia dias melhores nos quadrinhos. Hoje, é o Brasil. Que inclusive tem publicado obras de lá.

                                                         ***

Há que se entender melhor o impacto deste 2011 para o quadrinho brasileiro. É o que procuraremos fazer no blog nas postagens finais deste ano.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h04
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