18.02.12

Na sala de cinema, levarei teu ingresso. E arrepender-te-ás

 

  • Sequência de Motoqueiro Fantasma consegue ser pior do que filme anterior
  • Produção estrelada por Nicolas Cage cria algumas cenas constrangedoras de ver
  • Longa baseado no anti-herói da Marvel Comics entrou em cartaz nesta semana

 

Motoqueiro Fantasma 2 - O Espírito da Vingança

 

O vídeo sobre saídas de emergência exibido antes do longa-metragem na sessão em que estava dizia para o telespectador se acomodar na poltrona e assistir a um ótimo filme.

Era propaganda enganosa.

De ótimo, "Motoqueiro Fantasma 2 - O Espírito da Vingança" não tem nada. Muito pelo contrário. O que se viu até fazia um convite ao uso das tais saídas, de emergência ou não.

O filme, que entrou em cartaz nesta semana, consegue ser pior do que o anterior, exibido em 2007, e que também não era lá essas coisas.

                                                         ***

O Motoqueiro Fantasma é vivido, uma vez mais, pelo ator Nicolas Cage. Já no primeiro filme, ele não tinha acertado o tom sombrio do personagem. Repete o erro nesta sequência.

Exagerado, torna constrangedores os momentos em que se transforma no anti-herói. A mudança, como nos quadrinhos, "queima" sua cabeça, restando a caveira, envolta por fogo.

Além de ter força acima da média e de dominar uma corrente que destrói, literalmente, quem for atingido por ela, nessa forma ele absorve as almas das pessoas más.

A transformação é resultado de um pacto feito com o demônio. O acordo seria para salvar a vida do pai do protagonista, Johnny Blaze. Enganado, convive com o mal deste então.

                                                        ***

Há mais constrangimentos, além da atuação exagerada e fora do prumo de Cage.

Um deles. Numa das cenas, Blaze ouve uma pergunta de Danny, menino que tem de ser salvo por ele para não servir ao mal demoníaco (isso resume o enredo do filme).

O garoto questiona como o Motoqueiro Fantasma faz xixi quando está transformado. Resposta: a urina é como um lança-chamas.

Não bastasse, há um corte na cena e o espectador vê o anti-herói, de costas, soltando urina de fogo. De canto de rosto, a caveira olha para a plateia e esboça uma gargalhada.

                                                         ***

Outra cena constrangedora ocorre na primeira aparição do Motoqueiro Fantasma no filme. Ele precisa deter uma gangue, que está prestes a sequestrar o menino.

Em vez de derrotar todos, o anti-herói fica olhando para os bandidos, estático, mexendo a cabeça de um lado para o outro. O que poderia ser resolvido rápido leva minutos.

Resultado: metade dos vilões foge. Com o garoto.

No final do filme, há cena semelhante, com um número dez vezes maior de oponentes. O Motoqueiro Fantasma usa sua corrente e - pasmem - derrota todos em três segundos.

                                                         ***

 O Motoqueiro Fantasma foi criado nos quadrinhos há exatos 40 anos pelos roteiristas Roy Thomas e Gary Friedrich e pelo desenhista Mike Ploog.

O personagem tem ocupado desde então um lugar de pouco destaque no rol de criações da editora Marvel Comics, a mesma de Homem-Aranha, Hulk, X-Men e Homem de Ferro.

No cinema, afora a divulgação natural de um longa baseado em quadrinhos, repete-se a posição secundária. Mas, desta vez, por conta da baixa qualidade da produção.

Fuja do filme. Use o dinheiro do ingresso para outra coisa - troque por um álbum ou revista em quadrinhos. Senão, quem ficará com espírito da vingança será você mesmo.

Escrito por PAULO RAMOS às 22h02
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08.02.12

Mauro dos Prazeres (in memoriam)

 

  • Corpo do sócio-fundador da Devir foi enterrado no fim da tarde desta quarta-feira
  • Velório e sepultamento ocorreram no Cemitério da Paz, em São Paulo
  • Editor morreu na terça-feira; Devir emitiu nota de pesar via redes sociais

 

Tive poucas conversas com Mauro dos Prazeres. Mas, curioso, lembro-me de todas. O editor era dono de uma eloquência peculiar, daquelas que preenchiam o ambiente.

As palavras eram apenas uma pequena amostra da inteligência dele, que era mais conhecido pelo público leitor por ser um dos sócios fundadores da editora Devir.

E como era inteligente...

Nossos contatos, três ao todo, eram religiosamente anuais. Ocorriam sempre durante uma maratona de vendas de quadrinhos, promovida pela editora nos meses finais do ano.

                                                         ***

O primeiro encontro foi em 2009, numa mesa sobre quadrinhos nacionais, que eu tive a oportunidade de mediar. Mauro estava na plateia, ouvindo a tudo de forma discreta.

Discrição que se manteve até tomar a palavra. Mauro fez um depoimento, travestido na forma de pergunta. Foi uma aula detalhada sobre o atual mercado de quadrinhos no país.

A fala trouxe uma surpresa atrás da outra. A primeira, mais evidente, foi (re)conhecer nele o rosto desenhado por Lourenço Mutarelli na série de álbuns com o detetive Diomedes.

Mutarelli gostava de usar pessoas reais como coadjuvantes de suas histórias. Mauro foi um deles. Comenta-se que não gostou da forma como foi representado.

                                                          ***

Mutarelli retratou o Mauro dos quadrinhos com uma das marcas centrais do Mauro do mundo real: a eloquência. Mas era também uma de suas maiores qualidades.

Não se tratava de discursos longos, ocos e redundantes e, por isso, cansativos. Eram dos outro tipo, do melhor tipo. Aprendia-se, muito, com o que se ouvia.

Naquela noite de novembro de 2009, o editor citou alguns dos álbuns da editora, lançados no evento: "Yeshuah", "Fractal", "Estação Luz", "Joquempô".

Na leitura dele, o diferencial daquele dia estava na quantidade e na qualidade das produções nacionais presentes, algo impensável num passado não tão remoto.

                                                         ***

Pode-se contra-argumentar que Mauro arbitrou em causa própria, que fez um autoelogio, já que era ele quem editava aquelas obras nacionais.

O tempo garantiu de mostrar que não, que havia uma sinceridade singular naquelas palavras. Primeiro pela qualidade das obras em si. De fato, são boas.

Segundo pelo que ouvi em minha última conversa com ele, em dezembro passado, no mesmo evento. Mostrei a ele uma estante cheia de nacionais e o lembrei do depoimento.

Por algum motivo, a conversa e os olhares se ajustaram para um dos lançamentos brasileiros da editora.

                                                         ***

Mauro pegou o álbum e parou numa das páginas. "Está vendo? Há um erro de edição aqui." Frase dita de graça, sem que eu tivesse feito nenhuma cutucada jornalística.

Ele detalhou o equívoco, que não era aparente à vista e que precisava se comparado com outras páginas da obra. "Já alertei isso aqui na editora."

O meu espanto é que a atitude normal de um editor, numa situação dessas, seria esconder a falha, ainda mais de um jornalista.

Mauro, não. Mauro expôs o calcanhar-de-aquiles, sem medo, com a mesma simpatia e sorriso no rosto. Atitude própria de quem é seguro do que faz.

                                                         ***

Em 2010, tive a oportunidade de ouvir outra aula dele. Numa situação completamente atípica. Havia ido à maratona de quadrinhos, garimpei e estava na longa fila do caixa.

Mauro me viu passando os olhos numa edição rara de "Miracleman". Era o primeiro número. Ele foi até mim e, sem "oi" nem nada, pegou a revista da minha mão e se espantou:

- Ainda existe essa revista? Achei que havia esgotado!

Fiz cara de interrogação. O motivo do espanto dele tem a ver com o passado da editora. Aquele primeiro número havia sido o primeiro quadrinho do país distribuído pela Devir.

                                                          ***

- O logo da Devir aparece na capa. Está vendo?

Confesso que não sabia. Tanto que nem tinha aquele exemplar, publicado pela primeira vez no Brasil em 1989, pela editora Thanos.

Mauro e os demais sócios haviam criado a empresa dois anos antes. Inicialmente, o objetivo era criar um sistema de reservas para quadrinhos importados dos Estados Unidos.

Para quem já comprou na loja da editora nos anos 1990, sabe a febre que isso era. Depois, vieram os RPGs. E, por fim, a editora em si, com a publicação de quadrinhos e livros.

                                                         ***

Mauro e a Devir estiveram entre os primeiros a tatetar os quadrinhos em formato álbum, mercado hoje em franca expansão.

É uma história que se soma a outras e que ainda precisa ser contada a contento. Mas a parte dele, pelo menos, foi registrada em vida.

Mauro e Douglas Quinta Reis, outra inteligência ímpar e sócio na empresa, participaram há pouco tempo da gravação de um depoimento do projeto Sábado das Artes Gráficas.

O projeto inicialmente previa versões impressas dos depoimentos. Se de fato ocorrer, ficará ainda mais clara a importância que Mauro teve para o mercado atual de quadrinhos. 

Escrito por PAULO RAMOS às 17h29
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