Revolução independente

 

  • Festival Internacional de Quadrinhos bate recorde histórico de autopublicações
  • Houve pelo menos 136 obras nacionais lançadas no evento, realizado em BH
  • Qualidade dos trabalhos independentes faz repensar papel das editoras

 

FIQ 2013. Crédito da foto: José Aguiar

 

Quem participou da 8ª edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), encerrado domingo, em Belo Horizonte (MG), testemunhou um momento histórico no país.

Nunca houve tantos lançamentos nacionais reunidos num mesmo local. Salvo pouquíssimas exceções, predominavam obras produzidas pelos próprios autores.

Houve 136 trabalhos em quadrinhos preparados especificamente para serem vendidos no festival, o mais importante da área.

O número pode ser ainda maior. Alguns autores, que não tinham estandes, levavam de mão em mão suas revistas. Foi assim que o blog recebeu pelo menos cinco dos títulos.

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O levantamento foi feito pelo blog entre quinta-feira (14.11) e sábado da semana passada (16.11). O método foi visitar individualmente cada um dos estandes do evento.

Em cada um, foram feitas as mesmas perguntas: 1) quais das obras presentes ali eram feitas pelo(s) próprio(s) autor(es); 2) quais delas eram lançadas especificamente no FIQ.

O resultado da pesquisa, 136 títulos, é praticamente o triplo do visto na edição passada do festival, realizada em 2011 no mesmo local, a Serraria Sousa Pinto, no centro de BH.

Há dois anos, havia entre 40 e 50 produções novas produzidas de forma independente.

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Os números expressivos de autopublicações confirmam três tendências, que já vinham sendo desenhadas no FIQ passado.

A primeira é que muitos autores tendem a usar o festival como base de lançamento de suas publicações. Isso explica por que a cada dois anos há picos de lançamentos.

Um segundo comportamento que se pôde verificar foi a concretização do uso de verbas públicas ou do sistema de financiamento prévio para a edição e impressão dos trabalhos.

Parte dos quadrinhos independentes presentes no evento foi realizada assim.

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Desse grupo, a maior parte foi viabilizada pelo Catarse, sistema de arrecadação usado por muitos autores. Não por acaso, havia pessoas do site divulgando a página no FIQ.

O Catarse para produção de quadrinhos havia sido inaugurado no FIQ de 2011.

O trabalho pioneiro, que mostrou para o demais ser um caminho viável, foi o álbum "Achados e Perdidos", dos mineiros Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho.

Desde então, o site de arrecadação coletiva recebeu 60 trabalhos relacionados à area. Dez aguardam contribuições. Os demais foram bem-sucedidos. Criou-se um mercado.

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A terceira tendência concretizada neste FIQ é que já não existe mais uma linha divisória entre autor nacional e editoras. Estas foram sombreadas pelos independentes no FIQ.

A qualidade do conteúdo, a autopublicação e as formas alternativas de arrecadação suprimiram atividades que, até então, eram os diferenciais do meio editorial.

Essa concentração de lançamentos no festival sinalizou para a necessidade de as editoras de quadrinhos repensarem seu papel em relação aos trabalhos nacionais.

Num ano em que todas elas retraíram a publicação de títulos nacionais novos - à exceção da Panini -, os autores tomaram o protagonismo do processo e se fizeram acontecer.

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Esses ecos gerados pelo barulho do FIQ deverão ser abafados em 2014. Será o ano da Copa do Mundo no Brasil, de eleições e, principalmente, de um ano sem FIQ.

Haverá publicações nacionais independentes. Mas deverá ser em menor número, se nos pautarmos no histórico dos últimos festivais. A promessa é de novo recorde em 2015.

Talvez fosse o caso de as editoras apostarem justamente nesse vácuo gerado entre um FIQ e outro. Elas ouviram no festival várias propostas de histórias. Poderiam editar em 2014.

De todo modo, fica claro que o papel da editora nacional em relação ao quadrinista brasileiro já não é mais essencial, nem tão lucrativo ao autor. Está aí o FIQ para confirmar.

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Crédito: a foto desta postagem é de José Aguiar e foi pinçada do Facebook do desenhista.

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